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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Minha singela homenagem...

ao melhor dia da semana.




SEXTA-FEIRA A TARDE



As horas chegam inteiras.
A brisa barulhenta de um ventilador sopra incessante.
Sexta-feira a tarde, suplicada há uma semana.
O momento mais lúdico.
O piano mais afinado.
O céu mais azul.
O jantar mais saboroso.
O sono dos justos.

Olhar o teto.
Um estalo no pescoço
E a vida volta.

Retomar o olhar.
Antes contar as primeiras estrelas
A dívidas impagáveis.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Na época em que...

eu escrevia sonetos, um dia escapou este:




SOLIDÃO DEFINITIVA



A noite é longa e fria.
Não me é dado saber o porque,
Nem como, mas só penso no que
Tua ausência me causaria.
Penso em não estar contigo
Tanto quanto na solidão definitiva
Que improvável, todavia aflitiva,
Azeda a vida, destila o castigo.
Penso em você agora e talvez
Como se incerta a tua permanência,
Como se fosse a última vez.
Tento adequar meu paladar à ciência
De sorver a doçura que brota abundante
Do sorriso que traduz tua transparência.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

De volta à série....

dos colóquios insensatos!



COLÓQUIOS INSENSATOS 9



- Pois é Alípio.....a vida é assim.
- É Florípedes, é mesmo....
- Sua família esteve aqui no domingo não é?
- Só o meu mais velho Florípedes, já conversamos sobre isso, lembra?
- É mesmo Alípio, eu tinha me esquecido!
- E seus outros filhos, não vem nunca?
- Já falamos sobre isso também Florípedes, meus filhos são muito ocupados, cada um mora numa cidade, para eles é difícil... além disso tenho 23 netos e 12 bisnetos. Sei o nome de todos eles e eles também são muito ocupados. Mesmo o meu filho mais velho não vinha me ver há dois anos...é que mês passado foi meu aniversário, lembra?
- Verdade Alípio, já falamos sobre isso, desculpe, acho que estou ficando velho e esquecido.
- Imagine Florípedes, você ainda é novo, está com 86 né?!
- É Alípio, faço 87 em maio, ou será agosto?!!!
- Então, você vai ver....depois dos 100 o tempo passa voando...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um pequeno poema.

HIATO


Na oportunidade em que a vida nega as oportunidades,
Na ocasião em que a vida não cobra preços de ocasião,
No tempo em que a vida só faz perder tempo,
No momento em que a vida se faz de poucos momentos
E os enigmas mais se embaralham,
Aí me encontro.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Escrever um conto novo....

é sempre um desasfio imenso. Este é da novíssima safra. Minha modesta versão, talvez, à clássica estória da galinha dos ovos de ouro!






AS ESTÓRIAS E DESESTÓRIAS DE UM CACÓFATO


Machadão acordou meio-dia. Espreguiçou, coçou o saco demoradamente e fez café de coador. Sentou no colchão que explodia espuma pelos buracos e pensou: “Pôrra, que noitada!” Na noite anterior fumou um beck, tomou muita cachaça no boteco do Miltão, jogou snúqui, bateu pandeiro e até brigou, mas não se lembrava com quem. Um estranho silêncio invadia o Morro do Piolho naquela ex-manhã. O sol de dezembro esquentava o barraco até transformá-lo num micro-ondas gigante. Passou água na cara e foi prá rua, de calção, havaianas e camiseta no ombro. Apesar de ser uma figura estranha, do alto de seus 1,86 o sarará calvo de 32 anos de idade impunha respeito no morro. Era amigo da malandragem, dos donos do pedaço. Foi descendo e acenando: “Fala cumpádi”.... “Diz aí maluco”...”Tudo na regularidade?”....o Capão Redondo inteiro era o seu território.

Com as sobras dos trocados da última venda de crack pegou um ônibus para a Zona Oeste. O objetivo era zanzar, circular até vislumbrar a oportunidade de fazer um troco.

Seu nome era um cacófato. Décio Machado. Quando pequeno os moleques do morro gritavam em coro quando ele passava: “E desce o machado”. Ele odiava isso. Reclamava com a mãe, quando ela estava sóbria. Quando não estava só tomava porrada. Perguntava porque não tinha o nome do pai e ela respondia: “eu nem sei quem é seu pai seu bostinha”. Começou com pequenos furtos e logo já estava com o seu primeiro trezoitão de número raspado nas mãos. Matou três até os 13 anos. Em alusão às piadas com seu nome carregava uma machadinha no calção e vez ou outra decepava algumas partes de suas vítimas. Descia o machado. Na Febem virou Machadinho. Quando cresceu virou Machadão.

Desceu do ônibus na Avenida Rebouças, três da tarde. O calor estava um inferno e o céu começava a escurecer, o que garantiria o ibope do Datena no fim da tarde. Desceu a avenida a pé, observando os carros. Pajero é fusca, pensou! Não se conformava com a quantidade de carros importados na zona rica da cidade. No farol com a Estados Unidos o carrão preto parou com o vidro aberto, numa distração imperdoável do motorista. Machadão bateu o olho e o rolex dourado tiniu, sorriu pra ele. Rápido encostou, mostrou a automática escondida no calção e já anunciou: “Perdeu tio! Passa o rolex”. Vazou rapidinho com o relógio no bolso e sumiu numa travessa.

Quando tinha 16 a mãe morreu assassinada por um namorado. Ele estava na febem e ficou sabendo dez meses depois. Sentiu alívio. Saiu e caiu na rua. Morou na Sé, na entrada do metrô e tomou muito banho no laguinho da praça, piscina particular dos garotos. Cheirou muita cola e roubou muito velhinho. Depois dos 18 caiu num assalto a uma farmácia. Puxou 4 anos de cana. Saiu, matou dois. Puxou mais 8 anos e saiu em condicional.

Na travessa tranqüila sentiu-se seguro para examinar o rolex com seus olhos bem treinados. “Essa merda é de verdade”, pensou. “Garanti o meu natal e o dos moleques”, foi seu pensamento imediatamente seguinte. Oferecido nos canais certos a máquina iria render 700, 800 paus. Quem sabe até milão.


Machadão tinha dois filhos. Um com 14 e outro com 12, ambos forjados em visitas íntimas e frutos de seu caso de quatro anos com Jéssicah, com agá no fim, como insistia em enfatizar. Era usuária de crack e vivia fora do ar. Os garotos foram criados pelo vento. O mais velho já morava na fundação casa, mesmo endereço onde o pai morou e que só mudou de nome. O caçula segurava a onda até onde podia, sabe-se lá como. Numa estranha compulsão em premiar a honestidade Machadão pensou que seria o único merecedor de um presente de natal. Talvez um PS3 de origem obscura.

A noite, de volta ao barraco, segurou o rolex com olhos de quem não quer largar. Fuçou, mexeu e resolveu que iria curtir o produto por uns dias. Apareceu no boteco do Miltão com ele no pulso. Sucesso. Catou umas mina do morro com ele. Mais sucesso. O barato era de ouro e ouro faz sucesso até com madame. Alguns dias depois, antes de dormir, começou a fuçar nos botões. Começou pelo mostrador de horas e minutos. Um relógio analógico de ouro não se vê toda hora. Puxou a tarraxa mais para cima e começou a brincar com o mostrador dos dias. Era 18 de dezembro e sem nenhum motivo ele voltou o mostrador para o dia 13, data em que roubou o relógio. Imediatamente sentiu uma tontura estranha, um barulho de vento nos ouvidos e uma luz branca muito forte o obrigou a cerrar os olhos com força. Quando os reabriu estava sentado no colchão de seu barraco e a luz do dia invadiu o seu olhar. De repente estava com o mesmo calção do dia do roubo e com o conhecido café nas mãos. O relógio havia desaparecido de suas mãos. “Puta que pariu”!!! gritou já pulando do colchão. “Que pôrra é essa”! Saiu de casa atordoado. Perguntou pro vizinho: “que dia é hoje seu Jaime?”. “13 de dezembro, natal tá chegando né?!” respondeu o velho. Voltou pra casa pensando “cacete, esse relógio é o que”?! Voou pra zona oeste. Avenida Rebouças. Fez uma horinha e de repente olha o carrão preto lá de novo. Olha o rolex no pulso do otário lá de novo. Repetiu a ação e levou o relógio outra vez.

Nos dias que se seguiram, deixou o relógio ali, sobre uma mesinha. De vez em quando olhava meio ressabiado para o objeto, pensando nas possibilidades que ele poderia proporcionar. Em algumas noites saiu com ele no pulso outra vez e comeu novamente todas as mocinhas que já tinha comido antes por causa dele. Isso ele não recusaria. Viveu mais ou menos tudo o que tinha vivido até o dia 18, com a vantagem que agora sabia tudo o que iria acontecer. Depois do dia 18 era tudo incógnita. Um avião poderia cair sobre o seu barraco, ele poderia ser atropelado, preso....sentiu medo, o que não era comum e não gostava de sentir. Na verdade, após o dia 18 ele correria todos os riscos que sempre correu na vida. Mas agora era diferente. Ele já tinha sentido o gosto confortável de saber antecipadamente tudo o que iria acontecer. Parecia que agora os riscos eram ainda mais arriscados. Ficou tentado a voltar o mostrador dos dias novamente, mas pensou que não poderia viver para sempre naquele intervalo entre os dias 13 e 18 de dezembro, talvez só mais algumas vezes. Lamentou que o relógio não tivesse mostrador dos meses e dos anos. Voltaria para a sua infância provavelmente. Faria tantas coisas de forma diferente...mesmo sem saber exatamente o que.

Por via das dúvidas, voltou o relógio outras vezes até o dia 13. Ficou vivendo naquele intervalo durante uns dois meses corridos, mas mudava as suas atitudes, fazia coisas diferentes sem saber que estava mudando a seqüência dos fatos de forma perigosa. Por exemplo, num dos dias 13 de dezembro chegou atrasado na Rebouças. O farol onde roubara o rolex estava abrindo e o carrão preto passando. Teve que correr até o semáforo seguinte o qual, para a sua sorte, fechou. Para a sua sorte o trânsito estava lento como sempre. Alcançou o carro e levou o rolex. Mas foi por pouco. A partir daí voltaria o relógio apenas para o dia 14. Muito mais prudente e inteligente.

Fez coisas que não havia feito antes. Exemplo: nos dias que se seguiram ao dia 13 evitou contato com Stephanie, uma mulata tinhosa, cheirosa e gostosa, namorada do dono do morro e que dava o maior mole prá ele. Na verdade ele sempre fugira dela. Sabia o quanto era perigoso. Entretanto, em uma de suas voltas ao passado, resolveu que era hora de encarar, porque se sentia mais poderoso. Esse poder abria o seu apetite. Levou a moça pro barraco e viveu uma noite de sonho. Voltou a essa noite muitas vezes.

Por volta de um dos dias 16 de dezembro passou em frente a uma loja e viu um Playstation 3 na vitrine, igualzinho ao que iria comprar para o seu mais novo. Como não poderia abrir mão do relógio voltou ao dia 16 inúmeras vezes, estudou todos os movimentos da vizinhança, certificou-se de que não havia polícia por perto, até que entrou na loja, anunciou o assalto, quebrou a câmera, levou o aparelho e ainda esvaziou o caixa de quebra. O presente do moleque estaria garantido de qualquer maneira.

Com o dinheiro do roubo comprou uma arma melhor e maior, fácil de ser encontrada no morro. Arquitetou assaltos mais audaciosos porque tinha a vantagem de saber tudo de antemão, de observar, de saber por onde escapar. Supermercados, postos de gasolina, farmácias, não havia obstáculos. Chegou até mesmo a entrar muitas vezes em restaurante fino, muito bem vestido, comer de tudo, beber de tudo e na hora da conta escapar para o dia anterior com o bucho cheio, que ao voltar estava vazio de novo. Mas o prazer de ter experimentado aquela comida de rico, esse ficava.

Foi ao Pacaembú ver seu time jogar, deu rolê com carro importado de test-drive, pegou resultado de megasena, voltou, jogou e ganhou, levou Stephanie a motel caro, foram dias de glória. Parou de roubar porque descobriu que não precisava pagar por mais nada e isso é tudo o que qualquer pessoa pode almejar. Nesse intervalo de cinco dias, que durou quase noventa, viveu como um rei. Almoçava e jantava nos jardins, morava em hotel 5 estrelas, usava roupas caras e desfilava de bacana no morro. O chato é que não podia reter nenhum objeto, comprado ou roubado, tinha que fazer uso deles apenas até mexer no relógio novamente. Sempre que voltava no tempo o dinheiro e os objetos desapareciam e ele tinha que fazer tudo de novo. E tinha que ter método, agir com cautela, não dar nenhum passo em falso. Essa rotina foi cansando. Ele já estava estressado com tanto trabalho e tensão. Além disso havia sempre o receio de que alguém lhe roubasse o relógio reluzente. Seus vizinhos não eram de confiança, pensou, como se fosse pessoa de bem.

Num certo 18 de dezembro resolveu fazer novas experiências, ousar. Com o relógio nas mãos pensou muito e se perguntou: “se essa pôrra faz o tempo voltar deve adiantar também né?!” Hesitou alguns instantes e resolveu adiantar o marcador para o dia 25. Queria saber como seria o seu Natal. Certamente ótimo, com tanta fartura. Quem sabe até na praia? No estrangeiro? Com Stephanie? Ele sabia que a partir do momento em que pressionasse a coroa de volta e ouvisse o clique não haveria mais volta. Hesitou mais um pouco e pensou: foda-se! Clic!

A mesma tonteira, o mesmo barulho de vento e de repente uma sensação de leveza, que nunca sentira antes. Abriu os olhos. Estava pairando perto do teto. “Que merda é essa?” pensou. Ouviu vozes. Olhou para baixo e viu um caixão com o seu corpo dentro. “Caraaaalho Maluco”!!!, coçou os olhos ou o que imaginava que fossem olhos. Era ele mesmo. Ao lado do caixão apenas duas pessoas no seu velório. Miltão, o dono do boteco e seu Jaime, o vizinho. No pulso do seu cadáver lá estava o rolex de ouro. Por algum descuido ninguém percebeu que era legítimo ou ninguém teve coragem de surrupiar a joia do defunto.

De repente foi descendo do teto, tentou pegar o relógio. Não conseguiu. Gritou com força: “Seu Jaime, atrasa o relógio pro dia quatorzeeee”. Nada. O velho tá surdo?! “Miltão, me ajuda peloamordedeus”! Nada. Ainda ouviu seu Jaime comentando com Miltão: “O Machadão não deveria ter andado logo com a mulher do Paraíba”. E antes do que estava por vir teve tempo de pensar que se o relógio marcasse os anos voltaria para a sua infância. Faria tanta coisa diferente...mesmo sem saber exatamente o que!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quem acompanha esse modesto blog....

sabe que não costumo postar aqui os meus textos de "não-ficção", mas, assim como o meu cheque especial, tudo tem limite. Eu precisava fazer esse relato a respeito do que vivi na noite de ontem!



ONTEM ESTIVE COM UM DOS GRANDES


O escritor e poeta G.K. Chesterton disse que “há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes”. Esta foi exatamente a sensação que me ocorreu ontem. O que parecia que seria uma segunda-feira à noite como tantas milhares de outras acabou sendo uma que nunca irei esquecer.
Seis e pouco da tarde recebo um telefonema do meu amigo violonista Ítalo Perón, dizendo que Paulo Vanzolini acabara de lhe telefonar “solicitando” uma roda de choro na casa dele. Eu seria um dos poucos e felizardos convidados. Fui, com o coração aos pulos e com o cavaquinho debaixo do braço. Como recusar a um convite desses?
Lá chegando, desci do carro e tive um surto do que seria algo próximo à Síndrome de Stendhal, aquela sudorese, palpitação, sensação diáfana que se sente diante de uma grande obra de arte. Em poucos segundos eu estaria entrando na casa de Paulo Vanzolini, autor de centenas de obras de arte que eu tanto admiro há tantos anos. Parei, respirei e toquei o interfone da pequena casa de vila.
Na pequena sala já estavam em plena atividade o já citado Ítalo, acompanhado de Fábio Perón no bandolim, Pratinha na flauta, Artur no pandeiro, Cidão ao cavaco e a também anfitriã Ana Bernardo nos vocais. Timaço! No canto, sentado numa poltrona, o velho Mestre! Me apresentei como quem dá a mão a um anjo e disse: muito prazer! Poucas vezes na vida disse essa expressão com tanto significado. A despeito de Ítalo ter dito ao Mestre que eu seria um escritor e compositor (háháhá...”que sé yó”, como dizem os portenhos) já percebi de cara que seria muito benvindo e bem tratado por ele.
Já saquei o cavaco do “case” e me aboletei perto dele, antes que um súbito ataque de pânico sobreviesse. Logo de cara ele pediu “pedacinhos do céu”, letra colocada por ele na imortal criação de Wladir Azevedo. Atacamos. Ao final Paulo Vanzolini estava em prantos e anunciou solenemente que aquela música o emocionava demais. Começamos bem! A partir daí, tudo o que ele disse foi diretamente para mim, olhando nos meus olhos, porque não me conhecia e queria mostrar suas obras e contar suas histórias para mim, como se eu não as conhecesse. Disse (sinceramente) que era uma ousadia da parte dele colocar letra num choro de Waldir Azevedo e que ele deveria estar revirando dentro do caixão. Disse ainda que para ele isso era uma grande honra. Não agüentei e disse sem pensar: “para o Waldir também certamente é”, como se o próprio tivesse me soprado a frase nos ouvidos, lá do além!
A noite foi rolando de forma agradabilíssima e nos intervalos das músicas o “Seu” Paulo foi contando histórias deliciosas, sempre olhando para mim. Contou que se tornou grande amigo de Garoto e que com ele nunca conversou sobre música. Também foi amigo de Jacob do Bandolim e ensinava lições de ciências ao filho dele, Sérgio Bittencourt, quando este era garoto. Foi, enfim, gratuitamente contando grandes histórias sobre grandes pessoas, algumas tristes, outras engraçadas. Um patrimônio histórico absurdo e que deveria ser escrito algum dia, se ele concordasse.
O mais curioso é que “Seu” Paulo, por não se considerar músico e compositor e sim um cientista (também dos bons), contava essas histórias como se estas pessoas todas fossem superiores a ele, como se fosse uma dádiva essas pessoas lhe concederem amizade, como se ele não fosse um grande ícone da música brasileira. Entendi imediatamente que ele se vê num degrau inferior. Incrível!
Em determinado momento começamos a tocar as suas próprias obras, com ele cantarolando baixinho.
Tocamos “Seu Barbosa” e ele me contou que fora uma música encomendada para tirar uma onda com Adoniran. Senti-me tentado a dizer que ouvi essa história contada por ele mesmo no documentário “Um Homem de Moral” (já gastei o DVD de tanto asisitir), mas prudentemente calei e deixei o Mestre falar.
Não tocamos as mais óbvias (Ronda, Praça Clóvis, Boca da Noite) e continuamos singrando os deliciosos mares do “lado B”.
Bandeira de Guerra foi a próxima. Não resisti e disse a ele que acho essa música maravilhosa. Ele me respondeu com olhar de sincera curiosidade; “é mesmo”?
Quando tocamos a maravilhosa “Noite Longa”, “Seu” Paulo não se lembrou que essa música era dele! Incrível! Pensei que isso era o cúmulo do desprezo com suas próprias criações ou talvez um ar “blasé” forçado, de pouco caso, mas, vindo dele, é uma manifestação legítima e perfeitamente compreensível.
Por volta das 11 da noite, sem se despedir de ninguém como é permitido aos grandes, “Seu” Paulo levantou-se da poltrona e subiu as escadas do sobrado. Todos se entreolharam e não foi preciso dizer que o Mestre, nos seus gloriosos 87 anos, estava cansado. Mas a noite estava ganha.
De quebra ainda apareceu por lá Roberto Riberti, parceiro de Eduardo Gudin, Elton Medeiros e Arrigo Barnabé, letrista de obras primas como O Velho Ateu, Águas Passadas, Lenda, Cidade Oculta e tantas outras maravilhas. Conversamos bastante. Que noite!!!
Estar com essas pessoas faz com que nos sintamos, um pouco, como um deles e se o hábito do cachimbo faz a boca ficar torta, talvez um dia eu realmente seja. Oxalá e Inshalá!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Em um domingo em que...

os termometros passam dos 30 graus, nada melhor do que um soneto de amor para esquentar ainda mais:




EDIFÍCIO



Congelar a energia do início
É imprescindível a quem quer amar.
O amor deve ser sempre um vício
Daqueles bem difíceis de largar.
Pois senão logo vem o tempo
Com a mania de jogar por terra
Tudo e transformar em contratempo
A dor e a antiga paz em guerra.
Escapar dessa terrível sina
É preservar o amor mais propício
À alma que dele se ilumina.
Conservar intacto esse edifício,
Evitar que chegue logo à ruína
É congelá-lo logo no início.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sim, podem me acusar...

de ser excessivamente autofágico, metalinguístico. Sempre gostei de ter como tema o ato de escrever. Este é apenas mais um texto cometido em nome disso:



INVERSÕES


Aprendi a apreciar as rimas.
De menino, a distribuir ritmos,
Versificar métricas,
Metrificar versos
E os sentidos.
Empreendi viagens por rios insuspeitos.
Voei por céus nunca voados.
Aprendi a fugir das rimas.
Prescindi da métrica
Dos imprescindíveis versos
Mas nunca fugi dos ritmos.
Adorei o desenho das letras.
Acompanhei ludicamente seus contornos.
Solidifiquei-os na memória.
Decorei meus próprios versos
E as palavras com o sólido contorno
Das inesquecíveis letras.
Nunca esqueci que escrever
É esquecer tudo o que escrevi
E começar do nada,
Do vácuo, da primeira letra.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Por mais que não seja uma sensação...

baseada na realidade, existem dias na vida em que a gente se sente abandonado, só, um lixo! Esse sonetinho antigo fala um pouco disso.




FORA DE COMBATE


A todo delito corresponde uma vítima.
A todo rato sujo de sarjeta
Corresponde uma paixão legítima,
Ainda que do outro lado do planeta.
Um vento úmido e frio adverte
Que meu sorriso está fora de combate,
No jogo de sedução que patrocino deu empate,
Minha alma perdeu o ímpeto, ficou inerte.
Meu olhar apaixonado se tornou bovino.
Minha pele alva perdeu textura
E meu amor profundo se tornou cretino.
Um estorvo em meu coração sem ternura
Me faz só, abatido e franzino.
Uma mala sem alça rasgada na costura.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Muitas vezes....

a vida nos impõe tarefas muito difíceis, árduas, inesperadas. Ser obrigado a esquecer alguém que não se quer esquecer é apenas uma delas, talvez das mais impossíveis. Este soneto antigo fala disso:




DESAPARECIMENTO


Hoje de manhã vi você na esquina.
A vi depois, atravessando a rua.
Cocei meus olhos, você estava nua
Em passo lento, rosto de menina.
A tardinha você passou por mim.
Em passos largos, passou bem rente.
Estava então quase transparente,
Numa pressa de quem vislumbra o fim.
E então a noite você foi sumindo.
Como ultimamente já vinha vindo.
E teu sorriso alvo escureceu.
A madrugada veio e foi se abrindo.
Restou apenas teu calor dormindo.
Você finalmente desapareceu.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Hoje é sexta-feira....

...e é dia de retomar os colóquios insensatos. Vamos lá!



COLÓQUIOS INSENSATOS 8


- E então eu, como a nova CEO dessa empresa, convoquei a última reunião do ano, esse brainstorm final, porque quero levar para o Chairman e principalmente para o Board os targets e assignments para o próximo ano.
- Vamos começar já otimizando nosso endomarketing do head count inteiro, para melhorar o nosso break even point, correto?!
- Como faremos? Simples. Antes de mais nada vamos estartar o nosso B2C e dar um follow up diretamente ao CFO. Isso sem esquecer, é óbvio, que o nosso target sempre será o outplacement, tudo dentro do budget e principalmente do overhead.
- Para explicar isso vou passar a palavra para o suply chain management para ele falar do trânsito do benchmarketing. Almeida!
- Hã?......
- É com você Almeida....para falar do trânsito!
- Ah....com essa chuva....levei uma hora e meia prá chegar aqui....

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lá vai mais um...

poemão escrito há vários anos. Fala sobre o amor e suas vicissitudes, seus percalços e suas armadilhas. Quem não conhece isso?!





RELATO DO DIA SEGUINTE



Acendo mais um cigarro, respiro fundo e me coloco outra vez a teus pés
Procurando pontes que me levem de volta a ti,
Pontas de cordas para reatar os nós, mesmo ciente do que tu és
Porque não queria ver tua alma e de fato a vi.

Faço uso do polegar e do indicador de forma inusitada,
Tapo as narinas e mergulho rumo ao que desconheço e temo,
Estudo as táticas para vencer tua defesa bem armada,
Evito admitir os buracos em nosso barco a pique e incoerente remo.

Sinto faltar as energias que sugas sem cessar, levando embora a alegria,
Levando minha alma embora, confundindo os meus caminhos,
Eu que não sou Fausto e, tácito, aceito um acordo que não pretendia,
Recebendo em troca, parcelados, teus imprescindíveis carinhos.

Procuro saídas e teu coração só me apresenta portas de acesso
E escancaro o meu, inutilmente, posto que já o ocupas,
Ensaio despedidas, treino meus discursos de retrocesso,
Ao tempo em que não dou atenção ao que de fato me preocupa.

Flagro teu olhar percorrendo outros olhares ávidos,
Percebo teu coração desgarrando nas curvas dos nossos desencantos,
Quase aplaudo o espetáculo que armas, ao qual assisto impávido,
Ouço as explicações que não me forneces, cheio de entretantos.

Tento ser duro contigo pela manhã, ao telefone,
Repasso todos os meus conceitos mais racionais,
Acabo não resistindo e te imploro que me proporciones
Teu amor sem medo e teus beijos paradoxais,

Porque quando sinto colar teu corpo ao meu corpo perplexo
E ouço tua voz ecoando em todos os recantos do meu mundo,
Os argumentos se confundem num texto desconexo,
Ainda que eu não saiba o que fazer desse amor profundo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Escrito em tempos...

de guerra fria, ou talvez já quase gelada, este poema ganha vida nova nessa época de exercícios militares e testes nucleares pelo planetão afora!



POEMA INÚTIL APÓS O FIM DO MUNDO

Antes que o mundo acabe beije uma velha simpática de língua.
Antes que a vida se extíngua se aposente em Maceió.
Antes que retornemos ao pó dance nu uma rumba.
Antes que o planeta sucumba assista ao seu último eclipse.
Antes do Apocalipse adote Casanova como exemplo.
Antes do fim dos tempos desligue rapidamente a TV..
Antes do dia D assuma finalmente seu lado vagabundo.
Antes do fim do mundo escreva o verso fundamental.
Antes do juízo final aguarde impávido o seu deslinde.
E não esqueça do último brinde.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

No apagar das últimas luzes de 2010...

posto hoje o último texto desse primeiro ano de blog, um poema escrito há vários anos, em forma da famosa lista de providências para o ano que vai chegar, como todos nós temos o hábito de fazer. Cumprir as promessas já é uma outra história...
Feliz Ano Novo!!!



LISTA DE PROVIDENCIAS



Necessito lubrificar velhas idéias,
Dar forma nova a conceitos mal urdidos.
Embaralhar lembranças inúteis bem no fundo
Do mundo dos nós mal resolvidos.
Aparelhar a polícia da insensatez
Com armas vazias e palavras cheias.
Calibrar o olhar furibundo.
Dormir mais cedo. Dormir sem meias.
Conquistar Marias, Carolinas e Jussaras.
Limar as aparas das profundezas da mente.
Beber mais água. Comer mais vida.
Voltar a escrever prosa urgentemente.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Após mais um Natal...

Vou postar hoje um texto meu que acabou de sair em duas partes no blog do amigo Alexandre Cantinho. Quem não ler lá, que leia aqui!




PONDO O PÉ NA PROFISSÃO.


Gatunamente usufruindo da liberdade que o Cantinho me proporcionou aqui, quero terminar o ano falando de um assunto que me é muito próximo e que diz respeito ao mote dessa coluna, qual seja, o prazer e o belo (não o cantor), sendo essas grandezas intimamente relacionadas aos bares e à noite de São Paulo. Talvez a coluna de hoje seja mais longa do que eu pretendia e já peço desculpas de antemão por isso. É que o assunto é vasto! Quero falar de música! Ou mais particularmente dos meus amigos músicos! Peço desculpas também pelo tom intimista e autobiográfico.
Fernando Brandt, letrista dos melhores, começa a música Bailes da Vida dizendo: “Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão que muita gente boa pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar não importando se quem pagou quis ouvir”...é, foi assim! Eu me lembro muito bem.
Quanto à minha história, aprendi alguns acordes no violão aos oito anos. A partir daí me tornei auto-didata e um voraz consumidor da revista Violão e Guitarra (Vigú para os chegados). Aos quinze, ganhei um cavaquinho e um método. Saí tocando. Ainda aos tenros quinze anos pratiquei a minha primeira e tímida incursão na noite paulistana. Um amigo da escola me levou ao Bar do Amorim, uma biboca instalada numa sobreloja da Rua Augusta. Ao nosso lado um rapazola magrelo tocava violão como eu nunca havia escutado e cantava como um anjo. Era o Djavan. O meu “debut” foi o melhor que eu poderia imaginar!
Na Faculdade de Direito eu passei meses indo por aí, com o violão debaixo do braço, bebendo cachaça e organizando “violadas” no Centro Acadêmico. Até que, aos 20 anos de idade, dois amigos do bairro me convidaram a formar um grupo de samba! O nome? Grupo Pró-Alkool (assim com k mesmo) mais em referência às quantidades de álcool ingeridas pelos membros do que ao então emergente programa energético governamental. Durante cinco anos tocamos na noite, muitas vezes dormindo sobre os instrumentos, em razão do trabalho durante o dia e da faculdade. Fizemos uma pequena história, tivemos um vasto fã-clube feminino e tocamos em muitos bares, hoje extintos (não por culpa nossa). Andrade, Pote, Brasileirinho e tantos outros. Também dávamos expediente aos domingos a noite no “Botecão” (perto da Paulista), onde tinha macarrão ao sugo “de grátis” e onde eu conheci grandes sambistas do naipe de Odair do Cavaco, Cebolinha, Silvião do pandeiro e tantos outros.
Daí porque inicio esta homenagem aos meus queridos amigos (até hoje) companheiros de conjunto (na época ainda não se chamava “banda”). Além deste que vos escreve, ao cavaquinho, a troupe ainda contava com Gabriel na timba, Dé no pandeiro, Mauro no ganzá e no charme, Ronaldo no tamborim e nas relações públicas principalmente com as mulheres (infelizmente já falecido) e alguns outros bissextos. Desses, um carinho especial ao Maugéri Sobrinho, também já falecido. Um velhinho simpaticíssimo cujo apelido era “azulejo” (em razão da calva brilhante) e compositor da música “a taça do mundo é nossa”, além do hino do Santos Futebol Clube (agora quem dá bola é o Santos...). Esse simpático senhor nos acompanhou ao violão e ao bandolim brilhantemente. Saudades!
Outro violonista de 7 cordas sensacional que nos acompanhou na época foi o grande João Macacão, que muito nos ensinou e até hoje está na ativa (ainda é novo). Continua um ótimo amigo! Teve ainda um terceiro violonista, também já falecido, Seu Mário do 7 cordas, que havia tocado no regional do caçulinha na juventude e após sua aposentadoria nos procurou e ofereceu seus serviços tendo a séria intenção de terminar a vida fazendo o que mais gostava. Conseguiu e hoje temos orgulho de ter tocado com ele, uma das pessoas mais doces e educadas que conheci. Saudades!
O grande cavaquinista Seu Moreira, amigo de Paulinho da Viola e enfermeiro aposentado do HC, com quem muuuuuiiito aprendi. Saudades!
Essas pessoas todas não sabem disso mas forjaram em mim o mais profundo amor pelo samba, pelo choro e, principalmente, a paixão de tocar um instrumento num grupo.
A partir daí a história definitivamente se abriu num leque maravilhoso. Toquei com e conheci tanta gente boa e competente que às vezes fica até difícil lembrar de todos.
No saudoso Clube do Choro (e na “rua” do choro) conheci músicos maravilhosos. Infelizmente vários já se foram. O cantor Rubão, incrível voz negra que mandava o recado sem microfone. Gentil do Bandolim, também conhecido como Canhoto, Seu Tavinho no cavaco, Xixa do cavaco, Carioca no violão de seis, Manezinho da Flauta que dizia ser sobrinho do Pixinguinha (até hoje ninguém sabe se era mesmo), o maravilhoso flautista Carlos Poyares, e quanto aos felizmente vivos, o sensacional clarinetista Stanley, Zé Barbeiro, Cidão do 7 cordas, Miltinho, enfim, tanta gente...
Na Praça Benedito Calixto, um belo dia, surgiu um bar que ficava aberto até altas horas, o Vida e Arte, e onde todos os músicos da região iam fechar a noite após terminar o “expediente”. Desnecessário dizer que tudo acabava em samba até os primeiros raios do astro rei! (bonito isso hein?!).
Lá conheci e me tornei amigo (até hoje, para a minha sorte) do incrível compositor e violonista Antonio Mineiro, do Dr. Francisco Aguiar também conhecido como Chico Médico, cantor de vasto repertório de samba e meu médico até hoje, do talentoso violonista e cantor João Lúcio, meu amigo e parceiro (em várias músicas) e tanta gente mais...
No maravilhoso bar Vou Vivendo, legítimo herdeiro do Clube do Choro, fui vivendo noites incríveis. Assisti Hermeto Paschoal, Francis Hime, uma das últimas apresentações da maior cantora que já vi, Elizete Cardoso, o ótimo grupo vocal Canto a Canto e fiquei amigo da minha querida Jane do Bandolim, ou Jane da Bandola, como ela se auto-intitula.
No (talvez) melhor bar de música brasileira da história de São Paulo, Boca da Noite, também vi e vivi noites memoráveis. Lá conheci Filó Machado, Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudim, Maria Marta, Elton, Julinho e tantos outros cabras maravilhosos...
Após tantas e incríveis aventuras caí de paraquedas (e nunca mais saí) no Bom Motivo Bar. Daí a lista é enorme. Vamos por partes como diria o esquartejador: a começar do dono do estabelecimento, Roberto Lapiccirella, que também dava expediente de músico e cantor dos melhores, Waltinho, sambista de primeira e até hoje nas paradas, Maurício Anacleto, sensacional condutor de multidões (principalmente as femininas), Roberto Boca, de acento deliciosamente nordestino, o percussionista Maquininha, que não tem esse apelido a toa, Luís do violão, o mais admirado por todos, o sensacional Escobar, já falecido e que só aparecia para tocar depois da novela das oito, até ganhar um videocassete do dono do bar para chegar no horário, Carmem Queiroz, maravilhosa cantora, a sensacional pandeirista Roberta Valente, hoje “nas paradas de sucesso” com todo o merecimento, Iran Clayton, o mais simpático, Josias Damasceno meu parceiro (num samba só, infelizmente), pianista, violonista e cantor de levantar poeira, Mônica Salmaso, na época uma garota insegura e meio gorduchinha, o incrível (também infelizmente falecido) Ney Mesquita, um dos melhores cantores que já ouvi e meu ótimo amigo, Thaís Duque Estrada, amiga querida até hoje, na época uma menina de 17 anos que já esbanjava toneladas de talento cantando sambas que não eram da sua época e demonstrando uma cultura musical incomum, Oswaldo Bosbah, também amigo e parceiro (em várias músicas), prestes a lançar o primeiro CD, também um incrível músico e cantor, Ibys Maceió, talentoso cantor, violonista e compositor, também parceiro em vários sambas e que infelizmente voltou para o torrão natal, o meu “quase” parceiro e grande cara Roberto Simões, o meu queridíssimo parceiro (em uma música só) e talentosíssimo Wagner Brandão, pessoa doce e sensível que papaidocéu chamou cedo demais e por fim, meu irmão (até hoje Graças a Deus) Claudio Duarthe, violonista maravilhoso que não ia com a minha cara a princípio e depois se tornou meu grande amigo e parceiro em várias composições. Através do Cláudio me tornei amigo ainda do Pratinha, flautista e bandolinista sensacional, do Pimpa, o melhor pandeirista do pedaço, do Chico Filho, saxofonista excelente, do Adriano Busko, o percussionista mais criativo que conheci e do sensacional Adílson Rodrigues, arranjador de corais e crooner da ótima banda “Cometa Gafi”, que uma vez defendeu um samba de breque meu e do Cláudio, chamado “Nickname Brad Pitt” no festival de Tatuí e ganhou o troféu de melhor intérprete. Quantas histórias para contar....
Dos famosos fiquei amigo, na época, da genial Miriam Batucada e do “maior de todos”, Zé Kéti, a ponto de freqüentar a casa de ambos muitas vezes.
Mas a saga ainda não terminou! Tempos depois passei a freqüentar um bar vizinho ao Bom Motivo chamado “O Feitiço de Áquila”, nome pomposo para um lugar simples. O dono, Samir El Shaer, hoje compositor e realizador de trilhas para a TV, agitou o pedaço contratando bons músicos e convidando alguns famosos para se apresentar no bar. Zé do Bré, Renato Brás, Lula Barbosa, Fátima Guedes, Filó Machado, Carlinhos Vergueiro e principalmente o cara que se tornou muito meu amigo, Walter Franco. Quantas e quantas horas discutimos a vida e os rumos da música brasileira?! Além disso ele me convidou para cantar com ele a música “Me Deixe Mudo”, num show que ele fez no SESC Ipiranga e um dia me apresentou uma grande pessoa chamada Zé Ramalho, no camarim de um show do próprio. Bebemos uísque até de manhã. Sensacional! Além disso ainda existia as cantoras e os músicos amadores da casa. Zaira, Edilene, Solange, Gêmeos, Cacá, e tantos outros...
Também freqüentava, concomitante e democraticamente o sugestivo Música & Cia., dos meus queridos amigos Lúcio (já no céu) e Miguel Bargas. Quantas vezes fui lá escutar a banda do sensacional Kitú, cantor, guitarrista e pessoa da melhor qualidade!
Nessa época me tornei amigo (também felizmente até hoje) de um cara daquele tipo que dá orgulho na gente só de mencionar o nome. Ítalo Perón. O que dizer de um violonista, arranjador, pensador da música, com o extenso e variado talento que ele tem?! Além disso, o filho dele, Fábio Perón, merece um capítulo a parte. Eu o conheci aos 5 anos de idade (!), tocando flauta doce. Naquele dia ele me disse com a inocência própria das crianças: “Mário, vamos montar um grupo de chorinho?”. O fato é que muitos anos depois, ele já encantando a todos no bandolim, realmente começamos a tocar juntos em várias ocasiões. Deliciosa história e ótimas pessoas.
Também por esses tempos me tornei ótimo amigo (até hoje) do grande Waltão Lacerda (no tamanho e no talento), excelente flautista e meu colega de turma na faculdade de direito, como logo descobrimos.
Ainda no Feitiço de Áquila conheci a maravilhosa Fabiana Cozza (a rima foi sem querer mas bem que poderia ser de propósito), que imediatamente se tornou uma grande amiga. Na época, uma menina de 20 e poucos anos, Fabi era uma força da natureza. Cantava (e ainda canta) com a propriedade e a segurança das cantoras com 40 anos de carreira. Um vozeirão de tremer as janelas e que encantou a todos desde o primeiro momento.
Tive o privilégio de acompanhá-la ao cavaco em muitos shows no Villagio, no circuito dos SESC´s e outros espaços da cidade até que recebemos a incumbência e começamos a organizar uma roda de samba no bar Ó do Borogodó às segundas-feiras. Conosco, vários músicos maravilhosos e hoje ótimos amigos. Ruy Weber, incomparável violonista e acima de tudo excelentíssima pessoa, João Poleto, flautista e saxofonista talentosíssimo, o gênio da turma, Ildo Silva, ótimo cara e ótimo cavaquinho e Cebolinha, batuqueiro de rara sensibilidade. Evidente que a roda pegou e pegou a ponto de parir o primeiro CD de Fabiana Cozza chamado “O Samba é Meu Dom”. Tive o privilégio de participar desse CD, acompanhando ao cavaco a faixa “A Morte de Chico Preto” (Geraldo Fiúme), sem contar com a glória de ter uma música minha gravada pela Fabi. É a faixa “Luzes” (em parceria com o já citado Josias Damasceno).
Através da Fabi conheci ainda outros ótimos músicos e amigos. Cito dois que são mais próximos: Douglinhas Alonso um garotão que destrói tudo na percussão e Marcos Paiva, baixista, arranjador e produtor musical de competência prá lá de comprovada.
Ao mesmíssimo tempo em que tudo isso acontecia, eu também participava do conjunto “É do Baú”, de samba de raiz, com meus caríssimos amigos Chico Médico (já citado), Carlão Amigão no violão de seis, Kika, destruindo tudo no pandeiro, Cebolinha na percussão e em algumas ocasiões com meu querido Paulinho Amaral (violão de seis) com quem formei ótima dupla e que anda sumido demais.
Isso sem contar com participações esporádicas porém muito aguardadas por mim no conjunto “Inimigos do Batente”, dos grandes amigos Fernando Szegeri e Paulinho Timor! Luxo total!
Logo depois disso tudo ou ao mesmo tempo, nem sei, tropecei e caí na porta do Bar do Cidão de onde também nunca mais saí.
Quantos músicos excelentes conheci por lá. Alexandre Arruda, trombonista fino, Paulinho Ramos no 7 cordas, Renato Vidal ao pandeiro, Alessandro Penezzi, grande violonista, Neto Amaral, cabra da peste e cantador dos melhores, Marcel do cavaco, isso sem contar que quase todos os anteriormente citados davam e continuam dando as caras no boteco. As canjas então, maravilhosas. Beth Carvalho, Dona Inah, Marcos Bailão, Hamilton de Holanda, Yamandú, Gabriel da gaita, enfim, um time da craques!
Mais recentemente freqüentei bastante o Tocador de Bolacha, dos meus queridíssimos Stella Guerreiro e Antonio Mineiro (aquele violonista que conheci no início do texto), cujos nomes até rimam. Lá, em vários anos de agradabilíssima coexistência, convivi com muitos dos músicos já citados. Que tempo bom!
Bem mais recentemente me tornei amigo do excelente violonista e compositor Floriano Villaça e do “bárbaro” compositor e cantor Rogério Santos, para meu orgulho, além das ótimas cantoras e professoras de música Regina Machado e Sônia Ruberti, o que prova que tem sempre lugar para chegar mais e mais gente boa! E muitos mais virão, certamente!
O fato é que até hoje estamos todos por aí, tocando e cantando pelas quebradas da vida. E pretendemos fazer isso muitos anos mais, afinal de contas, Cervantes dizia que “onde há música não pode haver coisa má” e Shakespeare colocou na boca de Cleópatra as seguintes palavras: “música, caprichoso alimento de nós que negociamos o amor”.
A todos estes fantásticos músicos, inclusive aos que cedo já partiram, aos famosos e aos nem tanto (porque esse país é assim, infelizmente), grandes amigos e grandes pessoas e a todos os outros que eventualmente omiti, mais pela senilidade galopante do que pela desimportância deselegante, o meu reverente “buana, buana”, o meu entusiasmado evoé e o meu “mais profundo e emocionado muito obrigado”.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Aos meus amigos

e fiéis seguidores do meu modesto blog, desejo um Natal maravilhoso, junto de quem vocês amam!

Beijos e abraços!

Mário.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Letra sem música...

que está esperando parceiro há anos!



FILME ERRADO



ERA ASSIM QUE SEMPRE ACONTECIA,
EU NUMA ANGÚSTIA, NUMA AGONIA
E VOCÊ CURTINDO PRAIA
OU NADANDO NUMA RAIA DE PISCINA,
EU A PONTO DE BEBER RUM COM ESTRICNINA
E VOCÊ NAS FESTAS DESCOLADAS.
EU, VOMITANDO NAS PRIVADAS
E VOCÊ NAMORANDO NAS ESQUINAS
EM ORGIAS BEDUÍNAS.

ERA ASSIM QUE SEMPRE AMANHECIA,
EU NO HOSPITAL, COM PLEURISIA
E VOCÊ CURTINDO A VIDA
OU TENDO RECAÍDAS COM EX-NAMORADOS.
EU FAZENDO O NÚMERO DO ENGANADO
E VOCÊ DISFARÇANDO AS GARGALHADAS.
EU DORMINDO NAS ESCADAS
E VOCÊ NAS CAMAS LUXUOSAS
NUM MAR DE ROSAS.

ERA ASSIM QUE SEMPRE TERMINAVA.
VOCÊ SEMPRE RIA, EU CHORAVA,
VOCÊ RIA MAIS AINDA.
VOCÊ ERA UMA RAINHA LINDA
E EU UM POBRE REI SEM CETRO.
VOCÊ VIVIA NUM MUSICAL DA METRO
E EU NUM TRISTE DRAMA MEXICANO.
PREJUDICADO, ME SENTINDO SUB-HUMANO
NO FILME ERRADO.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Voltaram!!!

Os colóquios!



COLÓQUIOS INSENSATOS 7


- Pois é Marcão, estou te ligando por causa de um assunto muito chato viu?!
- Fala Cirilo, pô, você está me assustando cara...fala logo...o que foi?
- Acho melhor falar pessoalmente.
- Não, agora desembucha, fala!
- Tá, sou teu amigo e vou falar curto e grosso...a Aninha tá te traindo.
- O QUÊ???
- É isso aí, eu vi com meus próprios olhos.
- Pôrra meu, não me fala isso....assim você me arrasa...o que você viu?
- Ah, vou te contar os detalhes porque sou teu amigo mas eu já liguei pra ela e dei um espôrro.
- Como assim? Ligou pra ela antes de me contar?
- É, não agüentei, muita cachorrada da parte dela, sou teu amigo né?! Já fui falando um montão, que ela é uma vaca e isso e aquilo...e prá você não ficar por baixo já disse a ela da sua secretária lá que você catava, das meninas naquela noite no bar....
- Você pirou Cirilo??? Como é que você conta isso pra ela????
- Ah, não agüentei cara, ela riu na minha cara quando eu falei o que eu vi. Aí eu já fui falando tudo e ela quieta. E bati o telefone na fuça dela! Sou teu amigo pôrra!!!
- Mas o que você viu meu?
- Vi ela ontem a noite dando uns amassos num cara de cabelo raspado, naquele bar que só toca pagode....
- ERA EU PÔRRA!!! , eu raspei careca!!!!
- Puta merda Marcão, foi mal, mas também, careca, num bar de pagode???!!!..........pô, puta decepção...........tuiiiiimmmm.....

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Este soneto...

um dia recebeu música do meu parceiro Oswaldo Bosbah.




FARSA


Se a história se repete como farsa
E o que lhe sucede é pungente,
Se a emoção é rara e esparsa
E o que lhe excede é incoerente,
Se o medo é o nosso acessório
E o vazio que cria é cúbico,
Se o desencontro é nosso território
E o esporádico encontro é púbico,
Meu desgaste é pela demora
Onde amanheço cedo e prudente
Aguardando conhecer sua flora.
A noite é elemento emoliente
Não por anteceder a vermelha aurora
Mas por me tornar de cético, crente.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mais um poeminha.

ESFERA

A expectativa do beijo é melhor do que o beijo.
O porvir é quase nunca enfadonho.
Esperar é arte e ofício.
Ver é real, antever é sonho.

A promessa de sexo é melhor do que o sexo.
O que é conexo apura os sentidos da espera.
A mera menção faz o sonho eclodir.
Viver é ângulo, prever é esfera.