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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Se eu escolhesse....

Apenas um dos sonetos que escrevi como o meu preferido, seria este:



NOITE



Na extensão vasta de uma cama fria
Não há esporte mais digno dos heróis
E mais pleno de amor e de alegria
Do que, em parceria, esquentar lençóis.
E os lençóis esquentam no compasso
No qual esquentam corações e corpos,
Na fricção do amor, no calor do abraço
Findos os quais quedamos quase mortos.
O quarto inteiro parece não existir,
Nosso planeta é agora retangular
E é preciso, antes de tudo, sucumbir,
Porque você me subsidia no acordar,
Porque você me acaricia antes de dormir,
Porque você me faz sonhar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Esse é outro....

daqueles textos cuja paternidade eu não assumo!



NEM TUDO



Nem tudo que reluz é ouro.
Nem tudo que introduz é touro.
Nem tudo que seduz é loura.
Nem tudo que conduz é agouro.
Nem tudo que reduz é tesoura.
Nem tudo que transluz é estouro.
Nem tudo que se produz é couro.
Nem tudo que se reproduz é besouro.
Nem tudo que deduz é calouro.
Nem tudo que induz é vindouro.
Nem tudo que Jesus é manjedoura.
Nem tudo que contraluz é mouro.
Nem tudo que avestruz é comedouro e
Nem tudo que chafariz é bebedouro.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quem nunca...

Se sentiu inadequado? Sobrando? Quem nunca se sentiu um estorvo? por um motivo ou por outro? Não me lembro o que aconteceu e que me motivou a escrever esse soneto, mas certamente não foi algo agradável.





ELEMENTO ESTRANHO



Nunca fui cão em fundo de quintal,
Nem gato singrando muros.
Nunca encontrei meu habitat natural.
Sempre me vi em indescritíveis apuros.
O mundo para mim é uma selva
Dentro de outra selva indecifrável
E os animais que dormitam em sua relva
São de natureza nada afável.
A vã tentativa de um viver fecundo
Esvai-se na liquidez de um banho
E dorme no leito de um lago fundo.
Escreverão na lápide de estanho
No fim do dia em que eu deixar o mundo:
“Aqui jaz um elemento estranho”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Temos sonetinhos de amor?

Sim, sim, temos mais!





DOIS ELEMENTOS


Às águas claras deu brilho
Um raio de sol empoeirado
Riscando o ar com seu trilho
Compacto, amarelo, determinado.
Pudemos ver toda a aparência
Da água, como se inexistente
E em cada molécula de transparência
O feixe de energia sincera e quente.
Com dois elementos inventamos um mundo
De vida intensa porém fugaz,
Imune ao frio e desprovido de mágoa.
E ali em nosso mar, bem lá no fundo,
Não conseguiremos distinguir jamais
Aquilo que é luz daquilo que é água.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EIA, SUS!!!

3.000 ACESSOS!!!
OBRIGADO A QUEM PRESTIGIA!!!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Povo do meu blog....

Retornamos hoje com mais um colóquios!




COLÓQUIOS INSENSATOS 6



- Tira esse parafuso.
- Já tirei esse e não adiantou nada, eu acho que é melhor desatarraxar aquela engrenagem ali e retirar a bobina.
- Qual engrenagem, essa?
- Não, aquela ali atrás, à direita do rotor.
- Se você afrouxar essa engrenagem vai acabar engripando essa estrutura toda aqui que depende dela para girar.
- Lógico que não, cê ta maluco?! Essa estrutura só está aí para dar suporte para aquela bobina, que alimenta o rotor.
- Iiih, não tem nada a ver.
- Lógico que tem! Olha o fusível! Olha o fusível aí....
- Que fusível o que rapaz, isso é um transistor!
- Não senhor, transistor é esse aqui ó...preso nessa arruela...
- Tá, então não vou dar mais palpite, mas que vai dar merda, vai!
- A casa agradece.
- O que?!
- Você parar de dar palpite...
- Nããão, não tira esse parafuso não! Você vai soltar os arrebites todos!
- Ué, você não tinha parado?!
- Tá bom, tá bom...última pergunta....o que é esse troço aí?
- Não tenho a menor idéia.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os caçadores do poema perdido...

Encontraram mais um, bem antigo:



ESCREVER VERSOS COM SONO


Escrever versos com sono é pensar em estéreo
E segurar a caneta em mono.
Emitimos ondas alfa todavia
As quais são mais propícias à porfia.
Escrever versos com sono é deixar de ser todo ética,
É deixar de ser da alma dono.
A pureza poética sofre perdas, na verdade,
Mas o coração esquece as dores do abandono.
Escrever versos com sono é falar sobre a primavera
Em pleno outono.
Acabamos por confundir, entretanto, o nome da mulher amada,
Ainda que seja Maria.
Escrever versos com sono é disputar com sete atletas
E chegar em nono.
É não esquecer, todavia, de assoviar
A mesma velha melodia.
Escrever versos com sono é desprezar qualquer desabono.
É não ser escravo da caligrafia,
É sonhar em plena luz do dia,
É ser monarca sem trono.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Para que não digam,,,

que nunca escrevi um soneto decente sobre o amor...



BEM DA VIDA

O bem da vida é astuto.
Quanto mais o ouço, o rejeito.
Quanto mais destruído e refeito
Maior a sanha com que o refuto.
Surge assim, do nada incerto,
Entre os desvãos das almas distraídas,
Dissimulado, corroendo em investidas
O peito vulnerável e entreaberto.
Ele acelera e surge rápido como um trem
E toma de assalto o meu dia
E o outro, o outro e o mês que vem.
Sei o que me espera e se sofria
Antes, quando esperava por alguém,
Aguardo feliz tudo o que temia.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Olhem o que eu encontrei....

perdido nas gavetas escondidas do meu computador: um poeminha despretensioso, escrito há mais de 15 anos. Apenas para quebrar um pouco a sequência dos "colóquios insensatos", os quais retornarão ao seu tempo.



ENTRE PARÊNTESIS


Vez ou outra surge um obstáculo,
(Não bastassem os específicos do vernáculo)
Que desaba sobre a mente do poeta.
Um balde de água fria que o afeta
(A ponto de abdicar de sua caneta)
Por semanas, numa espécie de dieta.

Uma namorada que abomine a poesia
(Por charme, ignorância ou teimosia)
Basta para manter desativado
(Desde que se esteja apaixonado)
O veio lírico, antes vívido e brilhante,
Que agora dorme tímido e calado.

Pois todo artista necessita do aplauso
(Há quem não o queira por acaso?)
E bem melhor do que meramente aplaudido
(Festejado, admirado, consumido)
É sê-lo por alguém que, especialmente,
Se deseja num gostar bem desabrido.

Mas para o bem ou mal da arte,
(Há sempre alguém que chega e outro alguém que parte)
O gostar do poeta é tão pulsante
(Tão intenso e deslumbrante)
Que logo apaga sem deixar ferida
E, estando o poeta na vida,
Retorna a poesia triunfante.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

De onde veio estes...

Tem muito mais!




COLÓQUIOS INSENSATOS 5


- Ai amiga, então tipo me conta tudo!
- Ah aí eu sentei assim tipo meio pertinho dele né?! Ele me olhou assim tipo canto de olho.
- Mas ele tipo falou alguma coisa?
- Não, tipo assim logo de cara não, mas eu percebi que ele estava tipo olhando assim bastante.
- E era tipo gato?
- Aaaah, tipo bem gatinho. Daí ele chegou perto e já foi tipo dizendo que queria me conhecer.
- Tipo, tipo?
- Ah, tipo meio tímido no início mas vai tipo se soltando sabe?!
- E depois, tipo rolou alguma coisa?
- Não, não mas ele tipo quis meu telefone e disse que vai ligar tipo quinta ou sexta pra gente tipo marcar algum coisa.
- Aaai que bom amiga! Eu tô assim tipo bem feliz por você viu?! Conta mais.
- Sei lá, o cara é um tipo.
- Tipo o que?
- Assim, tipo de engraçado sabe?!
- Ah sei, tipo tipinho?
- É, tipinho, mas ao mesmo tempo é tipo tipão!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Êêêita....

Mais um colóquios!




COLÓQUIOS INSENSATOS 4


- Tá, bola seis na caçapa do canto.......errei merda!
- Pô Ferreirinha, hoje você tá jogando mal hein, já perdeu a maior grana!
- A grana é minha e você não tem nada a ver com isso. Bola sete no meio.....errei de novo cacete!
- Ferreirinha, essa você já perdeu, desiste e vamos parar por hoje.
- Parar a puta que o pariu, vamos jogar outra.
- Não Ferreirinha. A gente somos amigos e não queremos te limpar pôrra, você já perdeu mais de 500 paus e a gente sabemos que você não tem essa grana....
- É não tenho grana mesmo...então tô apostando o meu chevette 73 e minha mulher!
- Pôrra Ferreirinha!!!!
- É isso aí! Meu chevetão tá caído mas a patroa vai junto!!!.....o que é? Porque vocês tão fazendo essa cara?
- Não é Ferreirinha....sabe?....na boa...vamos jogar então, tudo bem, mas só o chevette já tá bão.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lá vamos nós...

Com mais um texto da série...




COLÓQUIOS INSENSATOS 3


- PÁ, um, dois, três, quatro.......foi.
- PÁ, um, dois, três, quatro, cinco, seis...foi.
- PÁ, um, dois, três, quatro, cinco...foi.
- Que é que cê tá fazendo ô Zé Mané?
- O que o Tonhão mandou ué!
- Mas tá contando o que maluco?
- É o seguinte: eu tô atirando na direção do coração e fico contando quantos segundos o cara demora para apagar. O record é 11 segundos daquele moreninho ali ó...
- Cê pirou de vez? O Tonhão mandou atirar na cabeça! Qué morrê maluco?
- Na cabeça não pôrra! Esses caras todos tem filhos. Amanhã é dia dos pais pô. Já imaginou a filharada vendo o pai no caixão com um puta buracão na testa?
- Tá, cê que sabe...depois se entende lá com o chefe então.
- Ah, não enche o saco e deixa eu fazer meu trabalho que eu tô atrasado. Puta cara insensível meu!
- PÁ, um, dois.....

sábado, 30 de outubro de 2010

Un´altro giorno...

E aqui vamos com mais um micro-conto:




COLÓQUIOS INSENSATOS 2


- Mas o que era essa coisa verde?
- Sei lá Selminha, acho que era o braço dele.
- Braço? Mas você não disse que era um troço meio pontudo e fininho?
- Não sei, não sei, eu vi meio de relance e tava escuro.Você sabe que aquele bar é escuro, não sabe?!
- Sei, mas o que ele te disse?
- Nessa hora nada, ele disse depois que passou o troço fininho em volta de mim e meio que me abraçou.
- Então, mas e depois, o que ele disse?
- Ah, ele disse que me achava linda e que o disco voador dele estava ali perto. Queria casar e me levar para o planeta dele.
- E você?
- Não fui né Selminha, eu não estou aqui???

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dia de inauguração...

Hoje aqui no blog! Há alguns dias comecei a escrever uma nova série de micro-contos baseada apenas em diálogos. Já fluíram vários textos que vou postar paulatinamente.
Eis o inaugural:



COLÓQUIOS INSENSATOS 1


- Fala Alfredão, quanto tempo cara!
- E aí Zé!
- Como vai a vida rapaz?
- Sabe como é, remando contra a corrente...
- Tá mas e aí? Como vai no trabalho?
- É, matando um leão por dia...
- Sei, e a família?
- Ah, lá é assim, casa de ferreiro, espeto de pau.
- Tá, mas porque?
- Você sabe né?! Cada cabeça uma sentença.
- Sei, mas conta mais, o que você anda fazendo de bom?
- Tô devagar, seguro morreu de velho né?!
- E você tem visto alguém da turma?
- Não, mas a pressa é inimiga da perfeição...
- Tá bom, mas vou te ligar para a gente se ver de vez em quando!
- Que bom, quem espera sempre alcança né?!
- Pôrra Alfredo, você não consegue conversar como um ser humano normal?
- Ah Zé, de perto ninguém é normal né?!
- Não Alfredo, estou dizendo assim...você não consegue falar sem usar um lugar comum, um provérbio pô?!
- Ah, até consigo mas falar é fácil, fazer é que é difícil!
- Alfredo, puta papo cansativo esse cara! Você está me irritando muito!
- Calma Zé, quando um não quer dois não brigam!
- Tá bom, então, quem com ferro fere com ferro será ferido. POW!

domingo, 24 de outubro de 2010

Continuando a agradável tarefa...

De postar meus hai-cais, aí vão mais dois:


Vida que vai e vem.
Preceito que não tem jeito
Enquanto se a tem.


Pretendo te amar
Enquanto a amo tanto.
O resto é apesar.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Hoje vou falar de um assunto bacana!

O Haicai. São apenas três versos que privilegiam a objetividade e a concisão. A forma poética de origem japonesa (haiku), no Brasil foi popularizada pelo "Príncipe dos Poetas, Guilherme de Almeida, com sua própria interpretação da rígida estrutura de métrica, rimas e título. No esquema mais tradicional, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo verso possui uma rima interna (A 2ª sílaba rima com a 7ª sílaba). O meus não são assim tão rígidos...aí vão os primeiros dois:




A árvore cresce
Lenta, porém ciumenta
Do amor que amanhece.


Vôo de gaivota
Passando sobre a casa
Do velho agiota.

sábado, 16 de outubro de 2010

Não dá para disfarçar...

o quanto sou fascinado por estruturas consagradas de composição poética ou musical.
Escrevi muitos sonetos, compus sambas de breque e, mais recentemente, descobri o Cordel. Já postei um texto em forma de Cordel aqui no blog e hoje, depois de passar dois meses escrevendo-o, posto o segundo. Espero que gostem!




O DIA EM QUE O MESTRE JACKSON DO PANDEIRO ENCONTROU MICHAEL JACKSON NO CÉU E DESCEU PRÁ ACABAR COM A BANDALHEIRA NA MÚSICA BRASILEIRA



Mestre Jackson e seu pandeiro
Foi pro céu dos cantadores
E animava o céu inteiro,
Desde o Chefe aos assessores,
Com seu cantar ligeiro
E sua verve sem pudores.

Mas um dia lá chegou
Outro Jackson bem mais novo
E como Maikel se apresentou,
Já fazendo amizade com o povo,
Que logo dele se apiedou
Pois era branco como um ovo.

Mestre Jackson olhou desconfiado
Pra figura do estranho menino.
Parecia um boneco engessado
E no meio um nariz muito fino.
Cabelo bem preto, alisado
E fama de bom bailarino.

E foi falando o rapaz
E o Mestre fazendo careta.
O cabra andava pra trás.
Parecia bem o capeta.
Diz que teve cartaz
E que era filho de mãe preta.

Nasceu de pele escura
E ficou branco o raparigo.
E a razão de tanta brancura
Começou por seu umbigo.
Uma doença sem cura
Um mal chamado vitiligo.

E quanto mais falava bonito
Mais o Mestre ficava calado.
Ficou o dito por não dito
E todo mundo desconfiado.
Ou era um cabra esquisito
Ou era hôme-viado.

E o fato estranho que havia
Que nenhuma explicação tinha
E que o pobre mal escondia
É que quase perdia a linha,
Todo mundo sabia,
Quando via uma criancinha.

Tirante isso era macho
E, dizem, muito bom moço.
No céu sossegou o facho,
Escapou por pouco do fosso.
Mandou passear o diacho
Batendo o pé e falando grosso.

Chegou-se ao Mestre o piá
E foi conversando fiado.
Disse: - “Pois bem meu xará”
Com sotaque todo errado:
- “Lá na tua terra natá
Sou eu o rei do babado”.

- “O povo todo me imita
E sou amado por toda a gente.
Na TV tô bonito na fita
Nem podia ser diferente.
Pois cada CD que apita
Vendo mais que pãozinho quente”.

Mestre Jackson sentiu cheiro
De lorota naquele fulano.
O seu povo forrozeiro,
Povo de lascá o cano,
Que sempre falou brasileiro,
Deu pra falá americano?

O moço tava enganado.
Precisava mudar o enfoque.
Como é que um povo danado
Do Chuí ao Oiapoque,
Que sempre dançou o xaxado,
Ia gostar de dançar roque?

Mas o Mestre preocupado
Era muito precavido.
Contou o palavreado
Pros amigo mais querido.
Luiz Gonzaga ficou abismado.
Noel Rosa de queixo caído.

Ari Barroso não acreditou.
Tom Jobim ficou fanhoso.
A moça Elis quase pulou
Na garganta do mentiroso.
Pixinguinha logo falou:
- “Isso é coisa do tinhoso”.

Vinícius nem deu bola,
Só de olho nas anjinhas.
O elegante Cartola
Esbravejou nas entrelinhas.
E a fofoca tá que rola
Nesse céu de figurinhas.

Velho Lua foi quem disse
No seu tom de presidente:
- “Deve ser até sandice
Desse moço diferente.
Eu só acreditava se visse
Isso tudo pessoalmente”.

Mestre Jackson ouvindo isso
Declarou solenemente:
- “Pois assumo o compromisso
Da tarefa mais do que urgente.
Desço pra ver o feitiço
Que abate a nossa gente”.

Dito isso não se ouviu mais um piu.
O Mestre logo pegou sua tralha.
Sapato, mochila, chapéu e cantil.
Gravata, bornal, pandeiro e navalha.
Foi-se embora pro Brasil
Pra dá jeito nessa bandalha.

Foi voando sem cegonha
Que isso é luxo prá quem nasce.
Foi chegando sem vergonha
De encarar qualquer impasse.
E o que viu foi coisa medonha.
Foi salada sem alface.

A TV era uma avacalhação.
Música ruim vinha a galope.
Não se ouvia um samba-canção.
Só sertanejo, pagode e hip-hop.
E era tudo ajambração
Prá conseguir mais Ibope.

O rádio não era diferente.
O Mestre quase desanima.
Pois a música daquela gente,
Sem melodia e sem rima,
Não descia nem com aguardente.
Era um furdunço de estima.

E tinha muita estação
Que nem música tocava.
Era só uma falação
Das igreja que tentava
Enganar os sem-noção.
A coisa tava muito braba.

E nos baile do interior
Era de cair o queixo.
O forró que era um primor
E era tocado sem desleixo
Deu lugar a um terror
Chamado de reboleixo.

Ninguém mais se importava
Com as músicas de antigamente.
Aquelas beleza que dava
Alegria no coração da gente.
Só o barulho imperava,
Só a porqueira era vigente.

É a ignorância que se lastima
E faz o povo virar ralé.
Não adianta ter bom clima
Pra colher um bom café
Se quem foi pro andar de cima
Ninguém lembra mais quem é.

Nos seus dia o povo amava
Uma música de qualidade.
Tinha caboclo que suava
Pra ganha notoriedade.
Hoje em dia o que conchava
Vira logo celebridade.

Qualquer cabra embusteiro
Qualquer Mané Zé Ruela
Que se acha violeiro
E faz um som requenguela
Ganha rios de dinheiro.
Tudo filho de cadela.

E o que é de aborrecer
É pensar que o povo é bobo.
É pagar jabaculê
Pra tocá as música em dobro
Na danada da TV,
Nas novela da tal da Globo.

Muita gente de talento
Ainda existe por aí.
Esse povo tá ao relento
Ninguém nunca quer ouvir.
Pois só tocam os xexelento.
Que só fazem progredir.

Mestre Jackson ficou triste
Com o que viu e o que ouviu.
Ao ver que não mais existe
Em todo esse grande Brasil
Nem um grãozinho de alpiste
Da música que um dia existiu.

Algo tinha de ser feito
Pra mudar esse perfil.
Então estufou o peito,
Botou bala no fuzil,
E disse lá do seu jeito:
- “vão prás quenga que os pariu”!

E sem demora foi invadindo
Estúdio de rádio e gravadora.
Percebeu que não era benvindo,
Chutou bunda de produtora,
E sua raiva foi cuspindo
Desbancando muita cantora:

- “Minha gente faz favor
De melhorar um pouco isso.
Vamos cantar com mais fervor,
Compor com mais compromisso.
Esse povo sofredor
Merece mais reboliço”

- “O ouvido fica malsão
De ouvir assim tanta asneira.
Vamo acabá com o papelão
De cantá tanta tranqueira.
Vamo honrá as tradição
Da nossa música brasileira!”

- “E porque chamar de banda
Um quarteto, quinteto ou sexteto?
Esses cabra que desanda,
Tudo magro feito graveto?
No meu tempo só era banda
As que tocava em coreto”.

- “Pelo povo desvalido
Subo até mesmo em palanque.
Ninguém gosta de ruído.
Será que não tem quem desbanque
Essa música de bandido?
Essa desgraça chamada funk?”

- “Onde é que já se viu
No país de Lenine e Chico
O nosso querido Brasil,
Musicalmente tão rico,
Uma música tão imbecil.
O meu ouvido é penico?”

O discurso foi ouvido
Pelo povo boquiaberto.
Foi um discurso sentido,
De quem tava falando certo.
Foi conselho a ser seguido
Por quem fosse mais esperto.

E era importante o alerta
Porque sério era o assunto.
Mas mesmo com mente aberta
E sem preconceito junto
As palavra que era certa
Era as palavra de um defunto!

Por mais que fosse importante
Respeitá a voz de contralto
De antepassado tão extravagante
Que surgiu de sobressalto,
O mercado continuava pulsante
E a grana falava mais alto.

E quem tomou o corretivo,
E que não gostou do que ouviu,
Tudo produtor executivo,
De pavio curto ou sem pavio,
Fez ao fantasma explosivo
Promessas e promessas mil.

Disseram que dali em diante
Nada ia ser mais igual.
Que ficasse confiante
Todo o povo celestial.
A musica boa de antes
Ia voltá a ser atual.

O que o Mestre não sabia
É que o bando de cheiroso,
Tudo dono de companhia
Que vai na onda do Veloso,
Tinha a terrível mania
De ser tudo mentiroso.

Mentiam de noite e de dia,
Mentiam sem nenhum motivo,
E a fala enrolada que havia
Aquele jeito agressivo
Era comum na putaria
Do tal mundo corporativo.

Aquela falsa alegria,
Aquele jeito mascarado,
Aquele clima de orgia,
Aquelas roupa de batizado,
Era comum na putaria
Do tal mundo globalizado.

Então o velho Jackson, contente,
Pegou o caminho da roça,
Achando que tudo ia ser diferente.
Mal sabia da sujeira grossa
Que aquele povo indecente
Fazia de sua bossa.

O Mestre pro céu retornou
Louco pra contá suas valentia.
Cá na terra nada melhorou
Pois a música que se ouvia
Em pouco tempo voltou
A ser a mesma porcaria.

E depois de seu regresso
O povo feito criança,
Teve a idéia, num acesso,
De prepará uma triste vingança:
Pegá o seu maior sucesso
E transformá em lambança.

O Mestre nas nuvens vivia
Enquanto destruíam sua arte.
Para a vingança que se urdia
Chamaram um grupo de dá enfarte,
Os assassino da melodia
De nome Banda Restart.

E o que ocorreu afinal,
Rearranjado em forma de break,
Até que não ficou tão mau.
Foi gravado enfim o remake
E era assim: “this is how
The frog sings in the lake”.......

domingo, 10 de outubro de 2010

Quem em sã consciência...

cometeria o despautério de escrever um soneto sobre a "bunda"? Drummond? Bandeira? Quintana? Pouco provável. Não que eles não tenham escrito poemas eróticos. Escreveram sim mas estes ficaram guardados a dezessete chaves e só foram divulgados após a morte dos poetas citados. Eu, que não estou sob a pressão da fama e nem tenho compromisso com o bom mocismo, cometi, há alguns anos, esse desatino:



SONETO GLÚTEO


A este formoso pomo de dama
Que aos sonhos profundos inunda,
Que as horas ociosas inflama
E que se convencionou chamar bunda,
Às duas montanhas de almas gêmeas
Com textura de pele infantil,
Escultura propícia às fêmeas,
De incomum denominação gentil
É que componho este soneto fútil,
De estrutura elementar volátil
Para designar o meu amor glúteo
Que extrapola a sensação táctil
E reclama uma dentada útil
Na maciez de região tão retrátil.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aqui vai mais um...

dos meus intermináveis sonetos!




CONGELANDO


O vento frio que me vem ao rosto
Traz um gosto acre de saudade
E as ruas tristes da cidade
A verdade de um eterno agosto.
O sangue, lentamente congelando,
Furta a minha última gargalhada,
Atrapalha a minha melhor piada
E do tempo vou me desligando.
A mão direita aos poucos endurece
E os versos escapam mutilados
Enquanto a alegria adormece.
O amor está desempregado
E o coração, sem ter o que carece,
Vai parando, vazio e congelado.

sábado, 25 de setembro de 2010

Mais um

dos meus intermináveis sonetos falando de amor!




COISA ENGRAÇADA



A solidão é uma coisa engraçada,
Quanto mais ela me invade o corpo
Mais a desejo num desejo torto
E mais a quero ter amenizada.
O amor é outra coisa complicada,
Quanto mais ele me inunda a vida
Mais me desespero na partida
E mais anseio ver a página virada.
Esse manto dissílabo e canalha
Quanto mais se encolhe ainda mais se espalha
Quando o mundo o estende sobre o vasto mundo.
E o peito, que antes era latifúndio,
Transforma o amor em algo nada amável
E a alma em charada indecifrável.